EDIÇÃO 2022

UMA TÍLIA PARA A PORTUENSE ANA LUÍSA AMARAL

 

A Feira do Livro do Porto 2022 fica inevitavelmente marcada pelo recente desaparecimento de Ana Luísa Amaral, autora em destaque nesta edição. Depois do sucedido, a homenagem a esta notável escritora e tradutora ganha um outro significado, uma outra ressonância, porventura mais emotiva.

A análise, debate e fruição da obra de Ana Luísa Amaral já não vão contar com a sua presença sempre afável e reconfortante. Resta-nos, pois, a evocação de uma mulher verdadeiramente excecional, com uma extraordinária obra literária (poesia, teatro, ficção, ensaio e literatura infantil), uma reconhecida carreira académica e uma intensa intervenção cívica.

Na apresentação pública da Feira do Livro do Porto 2022, em julho último, Ana Luísa Amaral brindou-nos com uma confissão: “Já não me sinto entre dois rios, já me sinto só deste lado e deste rio”. Com estas palavras tocadas pela luz, como só os poetas conseguem, revelou aquilo que há muito suspeitávamos: o Porto era a sua cidade.

Nascida em Lisboa, a escritora veio com nove anos para os arredores do Porto e teve dificuldade em ambientar-se a esta cidade com “alma de muralha”, como a descreveu Agustina. Por isso, durante muito tempo, o coração de Ana Luísa Amaral balançou entre dois rios: o luminoso Tejo e o Douro debruado a brumas. Mas, como confessou, era já com este último rio que mais se identificava.

Vamos honrar este sentimento de pertença ao Porto atribuindo, como previsto, a 9.ª Tília dos Jardins do Palácio de Cristal a Ana Luísa Amaral. Esta será a sua árvore, na sua cidade.

“A minha árvore está livre, / vejo-a daqui, / os ramos oscilando ao ritmo / dos meus passos // Como cadeira antiga / que não precisa nome, assim / é ela: minha, / e a ela aporto / como navio, agora” (in Mundo, 2021).

 

Rui Moreira

Presidente da Câmara Municipal do Porto

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IMAGINAR E AGIR: A POESIA

 

Imaginar e agir. Com estas duas palavras, performativas por definição, poderíamos resumir o trabalho poético. Se a imaginação é a capacidade de produzir imagens, a ação é a faculdade de agir sobre o mundo, deixar uma marca de diferença. Nas palavras de Carlos de Oliveira: “os escritores que contam são aqueles que acrescentam ou opõem alguma coisa ao que já existe”. E, como escreveu Mário Cesariny, outro grande poeta da língua portuguesa, “só a imaginação transforma, só a imaginação transtorna”.

Em tempos tão sombrios, escrever, ler, declamar, recitar, ouvir, replicar, mas também imaginar, podem ser considerados gestos de resistência — resistência contra a alienação, a solidão, a desesperança. A poesia é anterior à escrita, ela surge com a palavra, e a palavra surge com a fala, e só há fala quando há escuta — duas pessoas, pelo menos, que dialogam entre si. A poesia é a arte da partilha e está associada, desde tempos antigos, à perpetuação da memória. A poesia é uma promessa de futuro e uma força dialogante — porque escrevemos sempre para alguém, alguém que virá. Mas, também, porque escrevemos sempre no presente, implicados no tempo em que vivemos.

A Feira do Livro do Porto de 2022 é, pois, dedicada à poesia como grande força transformadora. Homenageia uma grande poeta, Ana Luísa Amaral, cuja obra chegou ao espaço público literário em 1990, há mais de três décadas. Professora universitária, feminista, tradutora, radialista, diseuse, voz influente no que respeita a temas prementes da contemporaneidade, tal como questões queer e de género, Ana Luísa Amaral tem merecido uma alargada aclamação crítica que se materializa num impressivo conjunto de distinções literárias, entre as quais se destaca o recente e prestigiado Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana (2021).

Outra figura evocada, através de uma exposição cujo título, Escrevo para um amigo que virá, resume o desígnio da poesia em particular e da arte em geral, é Manuel Gusmão, poeta humanista e um dos mais influentes leitores e críticos de poesia, a quem dedicamos uma exposição que é em si uma celebração da palavra poética, na medida em que, qual foz em delta, nela confluem vários e decisivos universos poéticos: Maria Velho da Costa, Maria Gabriela Llansol, Luiza Neto Jorge, Fiama Hasse Pais Brandão, Ruy Belo, Arthur Rimbaud, Nuno Bragança, Cesário Verde, Carlos de Oliveira, Herberto Helder e Francis Ponge.

Mas como falar de poesia? A essa pergunta essencial e recorrente tentaremos responder na Feira do Livro deste ano pela reunião de um programa amplo, diverso, plural, que acreditamos ser estimulante e desafiante. Escritores, leitores, divulgadores, editores, livreiros, alfarrabistas, mas também músicos e artistas, todos reunidos em torno dos segredos da palavra, dita e escrita, estarão alinhados por um mesmo propósito, uma mesma crença: a de que enquanto persistir o chamamento da escrita, o desejo da leitura e da escuta, persistiremos enquanto comunidade que se constitui pela partilha, a tolerância e a paz.

No cenário inigualável do costume, os Jardins do Palácio de Cristal, percorrendo a Avenida das Tílias entre a Biblioteca Municipal Almeida Garrett e a Casa do Roseiral, prometemos 17 dias de encontros, a que não faltarão os livros, conversas, lições, concertos, cinema, animação, sessões de relaxamento e o habitual programa infantojuvenil.

 

Nuno Faria

Coordenador de Programação da FL 2022